Insônia

Presa dentro dos meus olhos como um cisco
Vejo meu reflexo se mover como se fosse eu
Eu sou apenas um fantasma e ninguém entende minha língua
Mas não há tempo para sentimentalismo
O que eu sinto ou até mesmo o que você sente não é importante
Afinal, a vida é muito curta
e não se chega a lugar nenhum arrastando sonhos ou cicatrizes em papéis rasgados
Ninguém pode desenhar estrelas nas palmas das minhas mãos trêmulas
E ninguém pode escutar o meu grito
Exilado nesse silêncio faminto que é a noite

Nunca é tempo

É tarde. Os sonhos já adormeceram
em mim, as luzes se apagaram
no céu, as estrelas estão mudas

Eu sei, é tarde
a estação está vazia
agora, e a goteira sobre a pia
pinga uma lágrima a mais

Mas é tarde
e esta noite não tem lua
nua, nem você cheia de dedos
para me apontar que

Sim, é tarde demais para mentir
mesmo que seja verdade
que tenho saudade de quando era cedo
demais.

Profano

Era ali, o paraíso amortecido & amordaçado onde os anjos gozam Amém. Meus olhos – como um caleidoscópio – encarnavam milhões de olhares em um só, e eu via através de cada alma o pecado escarnecido e escondido detrás da devoção fingida que lhes encobria o verdadeiro propósito de viver à sombra da absolvição. Seu Deus todo piedoso perdoar-lhes-ia as falhas porquanto estivessem arrependidos
(Eu não vim chamar justos, mas pecadores, ao arrependimento - Lucas 5:32) 
 Ah, e estavam todos sempre tão arrependidos! Envergonhados de suas traições à bondade do Pai, depois de terem escarrado Seu nome nas sarjetas e reduzido Seu sangue sagrado a urina, os fieis curvam-se ao altar e rogam por benevolência - não importa seus dedos ainda tragam o cheiro obsceno do sexo que lhes rega o corpo. Em seguida, embalados no bálsamo dos sinos, dormem em suas camas imundas o sono dos justos. Quanto a mim? Eu permaneço insone, remoendo o pesadelo vil ao qual fui cruelmente introduzida. Não me restava ilusões acerca da perversidade humana, pois senti na pele – e mais além – a sua rijeza; mas minhas suspeitas quanto à benignidade de Deus atormentavam meu espírito. Eu sabia, deveria aceitar os desígnios Dele
(não cabe ao homem determinar o seu caminho, nem ao que caminha o dirigir os seus passos – Jeremias 10:03)
 mas precisava da anunciação pelos lábios manchados de dor & sangue de um Jesus do qual pudesse tocar e sentir o gosto de verdade, para prosseguir. Eu precisava de respostas concretas para as minhas perguntas que eram tantas e tão famintas que se alimentavam do meu disparate, adubando minha mente para o ceticismo – outrora maciçamente combatido - criar raízes. Sentada solitária no último banco da igreja, minha presença era imperceptível, mas minha aparência franzina e macilenta ofendia os santos que me olhavam do teto. Decerto que ouviam meus pensamentos ultrajantes e sabiam da minha heresia jamais pronunciada,
(Vigiai, estai firmes na fé; portai-vos varonilmente, e sede fortes - I Coríntios, 16:30)
 haja vista as paredes repletas de pinturas e de bocas me imputarem ingratidão & covardia aos brados. Eu senti o remorso atravessar meu corpo (como podia acusar de injusto o meu Senhor?), também - e novamente - a raiva (como podia não fazê-lo?). Duelei em silêncio. Eu contra os santos, contra os anjos, contra mim – contra Deus? Se perdi a batalha, não lembro, mas um soluço irrompeu na mudez. Era meu pranto que ecoava agora. E minhas mãos – de tão pequenas – mal podiam esconder minha vergonha.

Espectro

Era noite, bem noite, eu podia sentir os vermes do esgoto farejando minha alma podre. Seu lugar é aqui conosco! É o que eles diriam se pudessem falar, ou se – pelo menos – eu pudesse ouvi-los. Mas a verdade é que, de alguma forma, eu os entendia. Viviam na sarjeta por que o mundo, mesmo com toda imundice, era limpo demais para eles. E era perigoso andar por aí, correndo o risco de ser depurado por uma manhã qualquer de verão. Afinal, já não restaria nada menos corrompido em suas almas corroídas pela mágoa e pelo rancor, nada que pudesse ser visto à luz do dia sem que se cegasse uma legião de outros seres mais nobres.

Era por isso que eu andava a noite. A noite era minha casa, minha amante e meu ópio. Meu verdadeiro amor, este já nasceu corrompido, e morreu antes mesmo de vingar.  Foi quando eu enterrava seus ossos – naquela cidade de túmulos – que a noite me seduziu. A lua, você sabe, é uma farsa tão grande quanto eu. Com sua luz emprestada, engana a lobos e homens, mas não pode me desmascarar sem sofrer a mesma ameaça. Como dizem, à noite todos os gatos são pardos.

Eu poderia ter escolhido viver meu destino de trevas (on the dark side of the moon). Entretanto, deferente de ratos e baratas – que  nascem livres – o homem nasce condenado. É a maldição do pensamento, meu amigo, a pena perpétua dos fracassados. É nele que se manifestam a culpa, o medo, a raiva por sentir culpa e medo, e todos os outros sentimentos mais patéticos. E este sou eu. Embora mais cáustico e endurecido, sempre solitário.

Ainda aquela noite – antes que os pássaros acordassem – eu estaria misturado aos outros da minha espécie, mas meu segredo estava seguro. Minha alma - digo, meus olhos são negros demais para se ver através.

Aleatório

- Por que você não escreve mais? Sinto falta das suas palavras.
- Não sei, acho que tenho medo.
- Medo de escrever?
- Sim, porque quando eu escrevo (quando eu escrevo do fundo da alma) eu não consigo mentir.
- É da verdade que você tem medo, então.
- Sim, talvez seja mesmo...
- Mas você sabe que verdade é essa?
- Não exatamente...
- Então seu medo é descobrir a verdade?
- É, pode ser isso!
- Sabe o que eu acho?
- O que?
- Que você nem sabe realmente do que está com medo. E está aterrorizada por isso!
- É verdade, eu estou aterrorizada. Mas não é por não saber...
- E por que é então?
- Por saber que no momento em que eu escrever, não poderei mais fingir que não sei.

Da traição

O calor do seu olhar e a inflexão terna da sua voz me envolviam em um encanto difícil de romper ou do qual fugir. Parecia ao mesmo tempo plausível e inconcebível que o encanto ambíguo, um pouco pungente e misterioso, daquela mulher pudesse me atingir. O brilho dos seus dentes contra a polpa rosada dos seus lábios naquele sorriso incerto, tímido e raro; a seriedade dos seus grandes olhos escuros, tudo para fazer um homem mergulhar de cabeça no abismo aberto sob seus pés.

Era plausível, até mesmo para mim, e ao mesmo tempo inconcebível. Porque eu não era assim. Porque eu a amava, você. Porque estávamos ligados para a vida e para a morte, e eu não podia desaparecer do seu horizonte mais do que o sol podia desaparecer do céu.